branco sai, preto fica

Este ano começou com tudo, muitas mudanças, muitos desafios.  Atualmente, desisti de procurar emprego formal e comecei o tal Messshtrado. Acho lindo aquela teorização toda, sinto que estou começando a compreender a sociedade de forma mais ampla e ao mesmo tempo conectada ao lugar do indivíduo. Além disso, percebo a honra de estar neste espaço, principalmente em uma época de perdas de direitos e a forçada precarização das instituições públicas. No primeiro dia de aula, o coordenador da pós começou sua fala “escancarando a porta” e nos situou sobre o nosso privilégio de estar naquela universidade que, devido a desigualdade social, o acesso aquela instituição e aquela pós graduação torna-se um privilégio, não como algo que me orgulho de só eu ter acesso, mas como uma responsabilidade social de refletir para construir um futuro onde estar em uma pós seja uma questão de escolha, independente de classe, cor, gênero, etnia. A fala do coordenador me emocionou e senti estar no lugar certo, senti que ali poderei construir algo de acordo com os meus princípios e não um bando de folhas que serve apenas para constar no lattes.

Mesmo com todo esse processo democrático vivido nos últimos anos em que diferentes classes sociais, etnias, raças, gêneros tiveram maior acesso as universidades públicas, tem algo que perdura, principalmente naqueles que ocupam espaços de destaque, professores, mestrandos e doutorandos. Sempre me questionei sobre todo universo teórico da universidade e ontem, sentada em um bar, percebi que não é a teoria que me incomoda, mas a falta de humildade.

Cansada de problematizar, só queria tomar uma cerveja e rir da vida. Mas começou o assunto de pós graduandos na mesa, falar das desigualdades a partir da condição do indivíduo, problematizar a falta de acesso da população ao conhecimento produzido pela universidade e, inclusive, problematizar este conhecimento acadêmico como um deus superior e esquecer que as camadas populares (me ajudem a achar um termo melhor, galera) também possuem os seus valores e ensinamentos. Esse tal lance que os acadêmicos denominam como ” culturas híbridas” é o que vivemos atualmente, uma mescla da cultura elitizada junto a cultura popular, legitimando saberes e reconhecendo diferentes tipos de inteligência, tradições, manifestações artísticas e conhecimento.

Falamos das nossas opiniões, inquietações, situações e todos os ões possíveis da língua portuguesa foram discutidos ontem na mesa de bar. E, depois de desabafar sobre os meus questionamentos políticos que ultrapassam as manifestações de rua, mas surgem como questões cotidianas que podem ser colocadas em prática a todo tempo (ou seja, política é muito mais que Fora Temer, se eu quero isso, como minhas ações podem repercutir a saída do “vampirão” além da minha indignação no facebook ou na hora de votar?!), chegamos ao acordo que qualquer ato e situação, por mais sutil que seja, pode ser um diferencial na sociedade. Lindo, né? Maravilhoso, até eu perguntar pra moça (que tem uma capacidade de dialogar, explicar e se expressar de forma invejável) o que era o termo diáspora mencionado por ela no início da noite. Eu poderia ficar quieta e parecer mega inteligente por saber todos os conceitos do universo, mas resolvi perguntá-la e, incrivelmente recebi uma resposta bem acadêmica: “Eu não posso sintetizar este conceito porque ele é muito complexo para ser abordado de tal maneira, posso te indicar autores para você ler”. Eu persisto e digo que ela poderia me dar uma resposta breve, tipo resposta de wikipédia, só pra me contextualizar, mas escuto: “olha, se você se contenta com coisas superficiais, eu não me contento”. Eu fiquei com cara de toba sem saber porquê levei aquele fora tão sutil e educado, típico de quem quer um autógrafo de um famoso metido.

Aí eu te falo, pra quê toda essa mudança estrutural da universidade, pra quê todas essas cotas, projetos de extensão, toda essa luta de reformulação da universidade, do acesso a ela e das teorias acadêmicas discutidas neste espaço que, até então, nunca na história deste país teve uma pegada tão democrática, pra quê debater isso tudo se não discutirmos as coisas mais simples da humanidade, como por exemplo, a humildade. O que adianta promover espaços de discussão tão complexas se não debatermos conjuntamente o que nos resta de mais humano, o nosso ego. Branco sai, preto fica? Ou seja, só mudamos as peças, mas o jogo continua o mesmo?!

 

 

 

ps: este texto não faz menção a questão de raça, é só um trocadilho 🙂

ps: está certo eu usar o termo raça? #ajudadosuniversitários hahaha

 

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